Montagem baiana que retrata a vida de Madame Satã estreia em Salvador dia 02 de agosto

A montagem, interpretada por Sulivã bispo, fica em temporada no Teatro Martim Gonçalves

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Madame Satã é a personagem do próximo espetáculo de Thiago Romero, “uma espécie de desmonte poético-musical sobre a glória e a vida marginal de Madame Satã”. A montagem Madame Satã estreia no dia 02 de agosto e fica em temporada no Teatro Martim Gonçalves até o dia 12 do mesmo mês, de quinta-feira a sábado, às 20h, e domingo, às 19h.

Com dramaturgia de Daniel Arcades, coreografia de Edeise Gomes e direção musical de Filipe Mimoso, o espetáculo busca desvendar um complexo processo em que se imbricam a apropriação (e ressignificação) simbólica do malandro e a aplicação de estratégias biopolíticas sobre os corpos “fora da norma”.

Diferente dos musicais aos modos da Broadway e atuais musicais brasileiros, que focam em cantores, Madame Satã é uma biografia musicalizada, que pensa a música como instrumento de debate e discurso da negritude. Apesar de ter um caráter biográfico, o musical não tem um compromisso de contar cronologicamente a vida da personagem Madame Satã.

“A dramaturgia da peça foi criada a partir das situações relatadas pelo próprio Madame. Não estamos nos baseando em factoides, mas em relatos e entrevistas que o Madame concedeu. Buscamos ouvir a voz dessa personagem mito carioca”, explica Daniel Arcades.

O ator Sulivã Bispo dará vida a Madame Satã, um sujeito negro, homossexual, com diversas passagens pela cadeia e taxado de malandro durante toda sua história e com tantas dissidências da normatividade, uma dramaturgia correspondente a esta história necessita de um pensamento aliado a marginalidade da cena à história contada e aos ritmos musicais presentes.

Foto: Diney Araújo

As composições criadas para o musical estão inscritas e escritas no ritmo do funk, da percussão, no samba do início do século XX (quando ainda era um ritmo criminoso), com a métrica de sambas populares. O objetivo principal da montagem é transitar pelo percurso de Madame Satã e promover uma reflexão sobre o poder de instrumentalização do corpo, tendo como horizonte a produção de subjetividades contemporâneas.

O espetáculo, que tem como base a poética do Teatro Documental, não rompe totalmente com o caráter representativo de obras biográficas, na medida em que se baseia em uma “história real”. “Madame Satã desdobrar-se em incontáveis versões. Esta talvez seja a principal característica dele. Satã não foi. Satã é e está em constante devir”, descreve Romero.

A escolha pelo ator surgiu quando Romero o assistiu em “Troilus e Créssida”, dirigida por Márcio Meirelles, montagem do curso livre teatro da UFBA, em 2014. “Tive uma sensação muito parecida de quando assisti Lázaro Ramos no filme do Karin Aïnouz. Sem fazer comparações. Pensei: O dia que eu montar Madame Satã ele que vai fazer!”, recorda.

Sulivã Bispo comenta que tem uma relação muito profunda com o trabalho da Madame Satã e que ela “aparece na minha vida desde sempre”. “Percebo que, às vezes, ele tem uma energia muito parecida com a que eu acesso para construção de outros personagens. A vitalidade e a representatividade que ele tem na cena e no palco trago muito em mim”, explica.

O intérprete comenta que as maiores dificuldades para dar vida a esta personagem são as vivências e o tempo que são muito diferentes. “Madame Satã teve vivência em lugares como bordéis, cabarés, prostíbulos, noites que eu não tive ainda. Mas, busco ter, pois corpo é memória”, pontua.
Similaridades? Muitas. Dentre elas, o fato “nos sentimos na obrigação como artistas pretos, jovens, homossexuais e periféricos de falar sobre isso nos nossos discursos, nos espetáculos e nos nossos corpos. Ter a consciência e esse entendimento o que é bom para mim e para meu povo, do que é necessário para ambos, e o Madame Satã sempre lutou para isso”.

Mas, afinal, quem foi Madame Satã?
Esta é uma pergunta que o diretor Thiago Romero e o dramaturgo Daniel Arcades fizeram incontáveis vezes ao longo da pesquisa para o espetáculo. A análise de textos e obras, que vão dos discursos oficiais da primeira metade do século XX, imprensa vinculada à contracultura dos anos 70 e ao cinema produzido do início do século XXI, revelou parte das estratégias discursivas que procuraram lidar com seu caráter desviante.

Madame Satã é uma personagem que se desdobra em incontáveis versões. Na maior parte dos documentos, ela é apresentada de forma que a combinação negro, homossexual e marginal seja sempre ressaltada. Assim, aspectos físicos e comportamentais se misturam durante o exame de sua “personalidade” dita criminosa. Destaca-se, em particular, a definição da pederastia como um vício ou patologia, utilizada para acrescentar traços criminosos ao indivíduo.

Madame Satã faz parte de uma pesquisa de linguagem desenvolvida pelo diretor Thiago Romero. “Em Madame Satã me debruço novamente no biográfico, na pesquisa da representação do Homossexual na cena, porém escolhendo pela primeira vez uma personagem pública como possibilidade de refletir sobre as questões humanas que a chamada história oficial deixa de lado”, descreve.

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