Jovem de grupo teatral da PM da Itinga é indicada ao Prêmio Braskem

Neste ano, a estudante recebeu a indicação do prêmio mais importante da dramaturgia do estado, o Braskem, na categoria atriz revelação, com a peça A Rede – Memórias Compartilhadas.

0 252

Até 2016, a estudante Natalie Souza, 17 anos, sequer havia pisado em um teatro. Nem como plateia, tampouco como artista. As artes cênicas em sua vida pareciam distantes. Até que o curso de teatro oferecido pela Base Comunitária de Segurança (BCS), do bairro de Itinga, em Lauro de Freitas, Região Metropolitana de Salvador (RMS), a ajudou a enxergar a atuação como um dom. Neste ano, a estudante recebeu a indicação do prêmio mais importante da dramaturgia do estado, o Braskem, na categoria atriz revelação, com a peça A Rede – Memórias Compartilhadas.

Natalie, que está no último ano do ensino médio, foi indicada ao prêmio depois de ser escolhida por uma banca avaliadora formada por dramaturgos, produtores culturais e diretores. Ela concorre com outras três atrizes. O resultado final será anunciado durante uma cerimônia no Teatro Castro Alves (TCA), em Salvador, com data ainda a ser divulgada.

Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO

Indicação
Nem a própria Natalie acreditava que, um dia, pudesse ser reconhecida pela sua atuação, já que entrou nas aulas de teatro sem muitas pretensões, apenas, como afirma, parar quebrar a timidez. “Não que agora eu não seja mais tímida”, brincou.

“Eu estava no celular olhando o resultado. Eu acreditava que era possível ver o nome do nosso grupo nas indicações, mas o meu, não. Gritei muito. Meu pai, que estava ao lado, tomou um susto. Mesmo que o resultado seja negativo para mim, já foi muito importante ser indicada”, contou ela.

Para a mãe, não foi uma surpresa. Ela conta que a filha sempre se mostrou madura, sinalizando, por meio da música e das aulas de violão, sua veia artística. “Não foi supresa pela adolescente que ela é. Tudo o que ela faz é sempre dando o seu melhor. A família e os amigos ficaram muito felizes com a indicação. Na primeira apresentação, fui às lágrimas”, disse Analice Souza, 40.

Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO

A peça ficou em cartaz em dezembro do ano passado, no Laboratório de Experimentação Estética do Museu de Arte da Bahia (MAB), no Corredor da Vitória, em Salvador.

Teatro
Embora a jovem não acreditasse que um dia pudesse estar concorrendo a um prêmio, existia alguém, na coxia, que confiava no potencial dela e dos outros 10 alunos que fazem parte do projeto social oferecido pela Polícia Militar: o soldado Luide Prins, fundador do grupo teatral Junto e Misturado que surgiu em 2015.

Prins, que é formado em artes cênicas pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), é quem comanda as aulas de teatro que, atualmente, acontecem no segundo andar da base comunitária, na Avenida Fortaleza. Ele conta que Natalie consegue imprimir verdade no palco, o que foi capaz de despertar a atenção da banca.

“Quando eles começam, a gente não sabe de fato no que vai dar, mas quando eles começam a se apropriar [do teatro], parece que ‘liga uma chave’ e tudo muda. A maturidade que ela adquiriu e a verdade que ela consegue imprimir em cena me deixam surpreso”, confessa Luide, que dirige A Rede.

Na peça, Natalie interpreta a jovem Libert, uma moradora do campo que perdeu a mãe ainda muito pequena em meio a um mundo pós-apocalipse. Pai e filha decidem deixar o Brasil e se mudam para Inglaterra, onde o pai da personagem acaba morrendo. A jovem passa a ter que sobreviver em meio ao caos e aos ataques inimigos apenas se valendo dos ensinamentos deixados pelo pai, especialista em armas.

Antes de estar no palco, a estudante pensava em ser professora. Também já teve a ideia de cantar profissionalmente. Agora, almeja concluir o ensino médio e ter a pontuação necessária no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para ingressar no curso de teatro da Ufba.

Natalie foi apresentada ao teatro em 2016, quando as aulas eram ministradas pelo soldado Prins nas escolas públicas do entorno do bairro de Itinga. À época, o curso era apenas uma iniciação teatral com duração de seis meses, com uma apresentação feita no próprio ambiente escolar no fim de cada curso. Posteriormente, houve a criação do grupo com atores fixos do qual ela faz parte atualmente.

Filha de uma professora e de um padeiro, a jovem mora com a mãe e o pai na Rua Jânio Quadros, a cerca de 200 metros da base comunitária. No segundo andar da base, em um vão não rebocado com piso de paletes de madeira, acontecem os ensaios do grupo que, além da Rede, já esteve em cartaz com outras duas peças: Zambi – luta dos negros e Feche os Olhos, um espetáculo destinado ao público infantil. Os encontros também já aconteceram embaixo de um toldo de plástico armado no estacionamento do local.

Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO

Mas Prins avisa que, embora se trate de um trabalho social e comunitário, nunca quis subestimar os jovens e tampouco deixá-los serem minimizados dentro do cenário do teatro profissional. Por lá, todos são tratados como atores e atrizes. E sempre houve, inclusive, a pretensão de uma indicação.

“A gente liga muito essa questão social a uma coisa que é feita talvez com uma qualidade inferior. Mas sempre tive a preocupação de não revelar isso para o mundo teatral para não dar a entender que é uma coisa feita de qualquer forma, porque qualquer coisa poderia parecer justificável. Hoje, estamos voltados mais para o lado profissional”, diz o professor.

Novos integrantes
Para quem quiser ingressar na iniciativa, junto com o Grupo de Teatro da Polícia Militar da Bahia, inscrições estão abertas para jovens com idade entre 14 e 18 anos. Os selecionados participarão da seleção para compor o elenco do espetáculo Tati Búfala.

As inscrições estão abertas até esta quinta-feira (14), através deste link, ou na sede da Seção de Artes da PM, na Rua João de Deus, 34, Pelourinho.

A seletiva acontecerá no dia 15 de março, às 14h, no mesmo local. Ao todo, são seis vagas, mas não há limite para o número de inscritos. Os interessados devem apresentar um documento de identidade. Também estão abertas as inscrições para oficinas de música, teatro e capoeira.

CONFIRA OS INDICADOS AO 26º PRÊMIO BRASKEM DE TEATRO:

ESPETÁCULO ADULTO
– As Tentações de Padre Cícero
– Em Família
– Oxum
– Por que Hécuba?
– Teatro La Independência

ESPETÁCULO INFANTOJUVENIL
– Gramelôs e Garatujas
– O Barão Nas Árvores
– O Mundo Das Minhas Palavras
– Ponta D’areia, Pedaço Do Céu
– Quem Vai é O Coelho

ESPETÁCULO DO INTERIOR DA BAHIA
– Encarceradas (Feira de Santana)
– Enquanto os Dias São Mortos (Paulo Afonso)
– Mulheres Malês – Nas Margens do Rio (Lauro de Freitas)
– O Grande Yorick (Ilhéus)
– O Teatro é de Cordel (Jequié)

TEXTO
– Gil Vicente Tavares, por As Tentações de Padre Cícero
– Paulo Atto, por Teatro La Independência
– Vinicius Bustani, por Criança Viada Ou De Como Me Disseram Que Eu Era Gay
– Fernando Santana, por Frida Kahlo
– Wanderley Meira, por O Mundo Das Minhas Palavras

DIREÇÃO
– Diego Pinheiro, por Quasilhas
– Gil Vicente Tavares, por As Tentações de Padre Cícero
– Leonardo Santolli, por Consertam-se Imóveis
– Luis Alonso, por Teatro La Independência
– Marcio Meirelles, por Por que Hécuba?

ATOR
– Genário Neto, por Memórias do Mar Aberto – Medéia Conta Sua História, Titus – Uma Reverberação da Obra de Shakespeare e Madame Satã
– João Guisande, por Por Esse Amor e Retratos Imorais
– Lúcio Tranchesi, por As Tentações de Padre Cícero
– Marcos Lopes, por O Barão Nas Árvores
– Rui Manthur, por Enfermaria Nº 6

ATRIZ
– Chica Carelli, por Por que Hécuba?
– Evelin Buchegger, por Teatro La Independência
– Kátia Leal, por As Centenárias e Consertam-se Imóveis
– Marcia Lima, por Medéia Negra
– Vivianne Laerte, por Memórias do Mar Aberto – Medéia Conta Sua História

REVELAÇÃO
– Bárbara Lais, pela Atuação em Jackie – A do Mal ou Nem Tudo é O Que Parece
– Natalie Souza, pela Atuação em A Rede – Memórias Compartilhadas
– Sophia Colleti, pela Direção de Enfermaria Nº 6
– Vagner Jesus, pela Atuação em V de Viado

CATEGORIA ESPECIAL
– Ubiratan Marques e André Oliveira, pela Direção Musical de Quasilhas
– Andrea Rabelo e Joice Aglae, pelo Figurino de Confabulações
– Luciano Bahia, pelo Conjunto das Direções Musicais do Ano de 2018
– Thiago Romero, pela Direção de Arte de Oxum
– Mônica Nascimento, pela Direção de Movimento nos espetáculos O Último Capítulo, O Mundo das Minhas Palavras, Consertam-se Imóveis e Enfermaria Nº 6

Reportagem: Nilson Marinho/CORREIO

Comentários
Loading...